24 de maio de 2015

Casa Grande

Lançamento: 16/04/2015
Dirigido por: Fellipe Barbosa
Com: Thales Cavalcanti, Marcello Novaes, Suzana Pires e outros
Gênero: Drama
Nacionalidade: Brasil



O filme nacional apresenta o drama da classe média alta, além de discutir diversas questões sociais.

Jean (interpretado por Thales Cavalcanti) é um jovem comum, dentro de uma bem protegida zona de conforto. Não possui muitas preocupações, além de se relacionar com garotas, manter notas altas no colégio e se preparar para o vestibular. Porém quando seus pais, Sônia (Suzana Pires) e Hugo (Marcello Novaes), começam a ser afetados por problemas financeiros, se inicia um processo para gradualmente quebrar a tão protegida zona de conforto de Jean e fazê-lo enfrentar a realidade.

O filme inteiro não conta com nenhuma situação fantástica ou mesmo incomum, mas é nisto que está a proposta do filme. Relatar uma história, de um período de um ano aproximadamente, que consiste de elementos comuns a qualquer família. Situações ali aconteceram, acontecem e acontecerão com qualquer um. Junto dessas situações, são abordados diversos temas recorrentes, problemas e situações. O filme não fornece nenhuma resposta ou solução, afinal não é algo tão simples assim de se chegar. Mas ele coloca pontos de vista de lados opostos, criando debates interessantes e até acalorados em algumas cenas. É o suficiente para despertar algum questionamento em quem vê. 

Logo no inicio do filme, após a sequência responsável por mensurar o tamanho da casa, o filme nos mostra fatos importantes sobre o protagonista de forma inesperada. O garoto, estudante do melhor colégio do Rio de Janeiro (Colégio São Bento), morador de uma casa bem localizada e luxuosa, pertencente a uma família sem qualquer problema financeiro (até certo momento), não reconhece todas suas vantagens em relação à grande parte da população. Com isso, ele não possui qualquer satisfação em sua vida. E quando somamos este fato ao afloramento dos hormônios na idade que ele se encontra, além da pressão dos colegas e amigos, por fim temos em Jean fortes intenções e desejos sexuais. E isso o leva a fazer visitas noturnas à casa da empregada Rita (interpretada por Clarissa Pinheiro) dentro do terreno da família. E já que um não possuía o mesmo tipo de interesse um pelo outro, o jovem não se dá por satisfeito e vemos várias dessas visitas ao longo do filme.

Mais uma vez um simples ato toma proporções sociais. A perda da virgindade é tratada por jovens algum ritual de passagem necessário para se tornar homem. O desejo sexual toma conta e toma proporções desnecessárias. A atividade sexual não os torna melhores, piores ou diferentes. É natural, comum e dessa forma se dará.

Sônia e Hugo são quase as personificações de estereótipos de pais. Não existe nada de novo neles, assim como não poderia existir para essa história e proposta. Ambos são pais preocupados e cuidadosos com seus filhos às suas maneiras. A mãe é muito mais carinhosa e o pai muito mais rígido e autoritário. Ambos visivelmente amam seus dois filhos, e demonstram de sua própria maneira. Porém essas maneiras podem acabar por não despertar sentimentos em seus filhos.

O maior exemplo disso é observado em Jean. Ele é mais próximo do motorista e jardineiro que trabalha em sua casa e das outras duas empregadas que seu próprio pai. Com o motorista especificamente, ele confere intimidades e demonstra seus sentimentos reais, enquanto quando o pai se acidenta em certo momento da trama, o garoto mal se dispõe a ajudá-lo, apenas pergunta sobre seu estado, porém mais por educação do que por um afeto maior. 

Além disso, temos a desconfortável situação em que a irmã mais nova de Jean foi colocada. A atenção dos pais sobre o filho mais velho, e suas notas e intenções de faculdade, acabam por anular qualquer consideração à filha, que mimada, tornasse cada vez mais intolerante com a situação. Não deixa de existir amor, nunca deixou, mas o filme mostra que é necessário, às vezes, relembrar aos nossos entes, o quanto são queridos para nós. Existem grandes falhas na comunicação em todas as famílias. Omissões, mentiras, vergonha, desinteresse, despreocupação, medo... Todos sentimentos responsáveis por maus entendidos, discussões e brigas. Tão problemáticos, e ao mesmo tempo tão simples, pois uma conversa poderia ajudar a resolver muita coisa.

Não demora muito para que as novas dificuldades financeiras comecem a interferir na rotina do protagonista. O corte de gastos, acaba por dispensar o motorista e amigo de Jean, e subitamente, o garoto que estava acostumado a viajar de carro para o colégio, se vê tendo que aprender a andar de ônibus. Numa dessas idas, o filme brinca com o nosso preconceito ao colocar um homem “suspeito” ao lado de Jean, quando nos minutos anteriores, ele fora avisado sobre como evitar um assalto no ônibus. Se ele foi ou não assaltado, não é importante para o enredo, mas parece muito importante para quem vê a cena, ao dinamizar com a imaginação da pessoa e fazê-la decidir por si mesma, o que acontece ali.

É também no ônibus que somos apresentados a personagem Luiza (interpretada por Bruna Amaya). Uma estudante do Colégio Pedro II, que apesar de jovem e ligeiramente menos favorecida economicamente que o protagonista, possui grande e convincente esclarecimento sobre o mundo que o cerca. Em pouco tempo esses dois personagens engatam numa relação amorosa. E a partir do convívio com a nova namorada, Jean começa a expandir seus horizontes e encontra nela um caminho honesto e sincero para ser feliz.

A garota traz questões pertinentes e a partir dela é abordado um polêmico tema: a cota para as instituições de ensino. Concordando ou discordando com a lei, ela existe e se faz bem presente. E ainda nesse campo, temos também o desagradável tema da escolha do curso e da universidade. Onde os pais pressionam seus filhos na escolha, almejando um futuro próspero e seguro financeiramente com a mais sincera preocupação, mas em sua maior parte não são capazes de deixá-los livres para aprender e errar por si mesmos, e fazer suas próprias decisões visando seu bem estar emocional.

            O filme é um diferencial dentro dos vários filmes nacionais que são em sua maioria tentativas medíocres de entretenimento, porém sem um conteúdo narrativo eficiente. Ele é um retrato sincero de uma família possível e identificável. Infelizmente não ganhou muito espaço no mercado que deveria.

http://blogbistro33.blogspot.com.br/p/equipe-bistro.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário