19 de setembro de 2015

Que horas ela volta?


Lançamento: 27⁄ 08⁄ 2015
Dirigido por: Anna Muylaert
Com Regina Casé, Camila Márdila, Michel Joelsas e outros
Gênero: Drama
Nacionalidade: Brasil

O cinema brasileiro desenvolveu um certo gosto por criticar a própria realidade. Desde Central do Brasil, passando por Cidade de Deus e Tropa de Elite, os filmes que têm mais se destacado no nosso cinema são aqueles que, de alguma forma, expõem problemas graves no nosso cotidiano e Que horas ela volta? segue pela mesma linha de criticismo. Na trama, Regina Casé é Val, uma pernambucana que vai para São Paulo e trabalha como empregada doméstica. Durante treze anos, ela trabalha duro na mesma residência. Eis que, então, ela recebe a visita da sua filha, Jéssica, com quem não fala há 10 anos. A menina é recebida de boa vontade pelos patrões de Val, até que eles percebem que ela não segue as “regras de conduta” impostas pela sociedade.

Há muito o que se comentar sobre o filme. Muitas questões relevantes são traçadas durante a trama, o que nos renderia uma tese inteira para tratar de todos os pontos. Dentre os principais questionamentos do filme, podemos notar uma certa confusão no comportamento materno apresentada por Anna Muylaert. A personagem de Regina Casé se mostra, muitas vezes, mais mãe do filho dos patrões do que da própria filha. O próprio título Que horas ela volta? questiona um pouco desta presença materna na vida das personagens Fabinho (filho dos patrões) e Jéssica (filha da empregada).

A atuação de Regina Casé encaixa com a proposta. Apesar de fingir um sotaque que não lhe condiz muito bem, a personagem ficou bem construída e consegue capturar os trejeitos e expressões que se espera na atuação. Destaque à participação de Camilla Márdila, uma atriz com pouca experiência, mas, que provou muita competência e conseguiu convencer na sua atuação. A atriz Karine Telles também se saiu muito bem, muito embora o que há de mais impressionante na sua personagem seja a maquiagem. Conforme a patroa deixava de parecer uma pessoa boa e passava a se tornar a pessoa mesquinha, sua máscara vai se desmanchando e a equipe de maquiagem deu um efeito brilhante para a atriz ir se transformando em um “monstro”.

O filme é bastante detalhista. O figurino de Regina Casé é excelente. Se notar com cautela, a personagem está sempre trajando camisas de outros países tais como Áustria, Estados Unidos e outros, lugares que, evidentemente, Val nunca esteve. O figurino explicita o carinho que a empregada cativa pelos seus patrões. Um carinho que não é retribuído como percebemos em cenas bastante explícitas do filme.

O preconceito também é muito presente dentro do filme. A família dos patrões é totalmente preconceituosa e naturaliza esse preconceito no seu cotidiano. Enquanto Bárbara (a patroa, vivida por Karine Telles) expõe o seu ódio e a sua repulsa pela filha de Val, Carlos (o patrão) trata a menina com um teor extremamente pejorativo e sexual, deixando a entender que a garota pode ser usada como um objeto. Em diversos momentos, as personagens de Regina e Camilla são exploradas ora como objetos, ora como animais. A personagem que menos esboça o seu preconceito é a de Fabinho (filho da família) que, com Val, estabelece uma relação puramente maternal, e com Jéssica, busca um convívio muito tranquilo, apesar de demonstrar um ar de superioridade no que diz respeito ao vestibular. Neste caso, fica evidente no garoto o seu ego inflado que diz que ele “tem que ser melhor que ela”.


Por fim, concluo dizendo que o filme consegue representar de forma inteligente essa relação patrão-empregada, filho-mãe. Tem de tomar cuidado apenas com o falso-humor que este filme carrega. Se algumas falas de Regina Casé nos parecem engraçadas, não é, de jeito nenhum algo hilário. O riso que se forma é apenas o reconhecimento de que aquilo existe na nossa sociedade. Apesar de algumas risadas se formarem no cinema, o filme é extremamente triste e crítico. Um trabalho excelente da diretora Muylaert.


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