Lançamento: 27⁄ 08⁄
2015
Dirigido por: Anna
Muylaert
Gênero: Drama
Nacionalidade: Brasil
O cinema brasileiro
desenvolveu um certo gosto por criticar a própria realidade. Desde Central do Brasil, passando por Cidade de Deus e Tropa de Elite, os filmes que têm mais se destacado no nosso
cinema são aqueles que, de alguma forma, expõem problemas graves no nosso
cotidiano e Que horas ela volta?
segue pela mesma linha de criticismo. Na trama, Regina Casé é Val, uma
pernambucana que vai para São Paulo e trabalha como empregada doméstica.
Durante treze anos, ela trabalha duro na mesma residência. Eis que, então, ela recebe a visita da sua filha, Jéssica, com quem não fala há 10 anos. A
menina é recebida de boa vontade pelos patrões de Val, até que eles percebem
que ela não segue as “regras de conduta” impostas pela sociedade.
Há muito o que se
comentar sobre o filme. Muitas questões relevantes são traçadas durante a
trama, o que nos renderia uma tese inteira para tratar de todos os pontos.
Dentre os principais questionamentos do filme, podemos notar uma certa confusão
no comportamento materno apresentada por Anna Muylaert. A personagem de Regina
Casé se mostra, muitas vezes, mais mãe do filho dos patrões do que da própria
filha. O próprio título Que horas ela
volta? questiona um pouco desta presença materna na vida das personagens
Fabinho (filho dos patrões) e Jéssica (filha da empregada).
A atuação de Regina
Casé encaixa com a proposta. Apesar de fingir um sotaque que não lhe condiz
muito bem, a personagem ficou bem construída e consegue capturar os trejeitos e
expressões que se espera na atuação. Destaque à participação de Camilla Márdila,
uma atriz com pouca experiência, mas, que provou muita competência e conseguiu
convencer na sua atuação. A atriz Karine Telles também se saiu muito bem, muito
embora o que há de mais impressionante na sua personagem seja a
maquiagem. Conforme a patroa deixava de parecer uma pessoa boa e passava a se
tornar a pessoa mesquinha, sua máscara vai se desmanchando e a equipe de
maquiagem deu um efeito brilhante para a atriz ir se transformando em um “monstro”.
O filme é bastante
detalhista. O figurino de Regina Casé é excelente. Se notar com cautela, a
personagem está sempre trajando camisas de outros países tais como Áustria,
Estados Unidos e outros, lugares que, evidentemente, Val nunca esteve. O
figurino explicita o carinho que a empregada cativa pelos seus patrões. Um
carinho que não é retribuído como percebemos em cenas bastante explícitas do
filme.
O preconceito também é
muito presente dentro do filme. A família dos patrões é totalmente
preconceituosa e naturaliza esse preconceito no seu cotidiano. Enquanto Bárbara
(a patroa, vivida por Karine Telles) expõe o seu ódio e a sua repulsa pela
filha de Val, Carlos (o patrão) trata a menina com um teor extremamente
pejorativo e sexual, deixando a entender que a garota pode ser usada como um
objeto. Em diversos momentos, as personagens de Regina e Camilla são exploradas
ora como objetos, ora como animais. A personagem que menos esboça o seu
preconceito é a de Fabinho (filho da família) que, com Val, estabelece uma relação
puramente maternal, e com Jéssica, busca um convívio muito tranquilo, apesar de
demonstrar um ar de superioridade no que diz respeito ao vestibular. Neste caso,
fica evidente no garoto o seu ego inflado que diz que ele “tem que ser melhor
que ela”.
Por fim, concluo
dizendo que o filme consegue representar de forma inteligente essa relação
patrão-empregada, filho-mãe. Tem de tomar cuidado apenas com o falso-humor que
este filme carrega. Se algumas falas de Regina Casé nos parecem engraçadas, não
é, de jeito nenhum algo hilário. O riso que se forma é apenas o reconhecimento
de que aquilo existe na nossa sociedade. Apesar de algumas risadas se formarem
no cinema, o filme é extremamente triste e crítico. Um trabalho excelente da
diretora Muylaert.




Nenhum comentário:
Postar um comentário